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Entre as patas há um poço

Durmo com uma cachorrinha que gosta de beliches. Ela é mandona, adora ficar por cima, de me ver lá embaixo, por entre os vãos. Das tábuas. Das dobras. O aperto do quarto faz com que eu veja discretamente o seu rabo balançando, ao trocar os degraus, espremendo-se contra a parede. As patas subindo desfazem a coleira que me prende à cama. E antes do sono, no escuro, eu também subo para lhe lamber o rosto. Me lambuzo em seu poço, naquele silêncio, só um ganido baixinho no ouvido. De quatro, ou de lado, não importa, sou seu dono, mendigo, mordomo. Mas ela gosta mesmo é de ficar por cima, os dois trepados no beliche, esquentando os pelos sem tosa. Roçando os caninos amorados. Amordaçados. Sei que ela chegou em casa quando sinto o cheiro de leite, as tetas chacoalhando pesadas, nossas cores se confundindo nos latidos que vêm de baixo, novatos, cobertos um no outro. Algumas vezes farejo seu sangue, o deleite do cio, e nos arranhamos a noite inteira até esgotarmos as gotas do gozo, do enrosco que espalha nossos corpos até amanhecer… Há três anos comemos da mesma ração.

Por Renato Zapata – AoOitavo

Ilustrado por Rafaela Sueitt

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O destino dos brincos

Os brincos dourados foram as únicas testemunhas inanimadas daquela noite. Enquanto o volume das ondas do mar se misturava com as três respirações, em tom uníssono, um brinco se desvencilhava do outro e, silenciosamente, contrastando com os alentos de praia e personagens, se afundava morosamente, até, enfim, deparar com o seu destino. Compunham este cenário: a lua cheia, lá no alto, a escuridão, lá na frente, e a areia – onde descansavam algumas mudas de roupas curtas –, lá atrás. Naquele instante, pouco importava perder um enfeite, sendo que diante de toda exuberância natural pintada por Deus – e todos ali sabiam da maravilha a ser desfrutada –, quem ordenava os próximos passos era a volúpia do trio.

Já não havia mais espaço para a maquiagem, que descia borrada pelo rosto dela em direção aos lábios roxos, friorentos e sem batom. Os olhos perderam o brilho, efeito da água salgada que apagava quaisquer resquícios de brilhantismo. Na noite, apenas a lua observava e iluminava, lá de cima, o que estava prestes a acontecer. E, por isso, só ela poderia brilhar. As duas esferas redondas e negras aparentavam ora tesão – um tanto enrustido –, ora dúvida. Medo, jamais. Gélidas, as mãos dela perderam a suavidade e o toque na pele não era assim tão prazeroso. Todavia, a gana pela conquista sobressaia – e os pormenores eram cartas fora do baralho. Curioso é o comportamento do Homo Sapiens na tentativa de persuadir alguém a ceder algo: o jogo de palavras, a audácia, são (quase) dignas de um poeta da Vila. Acaricia e sorri como se fosse a Mata Hari do gênero masculino até convencer o próximo de que aquele frio é, no duro, um arrepio de um sopro nas costas, daí o porquê dos beiços escurecidos.

Ela lutou e bradou aos quatro cantos da praia. Censurou-se (até as peças de Nelson Rodrigues sofreram censura…). Mas toda essa batalha e “falta de respeito” não era contra as duas almas ali presentes. Era contra ela, que sentia o calor se aproximar, enquanto o racional ia se esvaindo da mente.

Entraram no carro de Joana.

No trajeto, uma parada rápida, mas decisiva, em um botequim para saciar o súbito desejo por um café preto. (Talvez ela pensasse que a cafeína pudesse cortar o efeito das poucas cervejas ingeridas). No retorno, um cigarro fora acendido ao outro. Enquanto Joana dirigia, Dorival, sentado no banco de trás, estava calado e era um poço de oscilações de sentimentos. Entre tesão, aflição, insegurança e conquista, ele ficava com um ato: o grito interno…

Domenico era malicioso por natureza e mal sustentava a expressão de certeza. Até aquele momento, apesar dos olhares, respirações, diálogos e um breve toque nas costas, nem os lábios haviam se encontrado. (E o beijo é, ou deveria ser, o ponto de partida até chegar ao veredicto final). Dom estava sentado no banco da frente, e havia conhecido a motorista naquela noite. Convicto, já vibrava de excitação com o futuro a sua frente.

Ela não só admitiu, como sugeriu uma cabana ali pelas redondezas. O local havia pertencido a um tio, e ela tinha posse da chave do local. Dorival era conhecido dela. Ao constatar o suor de nervoso escorrer pelas mãos, sentiu-se patético, pois sabia que, entre as pernas dela, só havia uma constatação: o da luxúria pinicando a calcinha vermelha. O vestido dela era branco.
Adentraram a cabana. Sem paciência para mais conversas fiadas, a despiram-na e dominaram-na com voracidade. Houve um pequeno gemido da parte dela.

Antes do primeiro choque entre os órgãos, ela soltou um choro de desespero. Sabia ela que aquilo era incorreto e que a religião não permitia. (É natural que a fé ressurja nos momentos críticos, mas no momento de lascívia? Só no Rio de Janeiro). A partir daí, Dorival travou e, ao vê-la chorar, sentiu-se letárgico. Consequentemente, os músculos relaxaram, literalmente. Não era apenas o arrependimento da traição, mas, sim, o fato de trair a companheira (àquela hora ela já entrava no terceiro sono) com alguém que não valia a pena. Que nada significava.
Dom, cego pela quantidade de sangue concentrada no símbolo de Marte, a convencera de que aquilo era o momento. Enxugou-lhe as lágrimas, dera o beijo mais carinhoso na testa e abraçara para, logo em seguida, penetrar-lhe. O grito engasgado de tesão dela saiu com fervor.

Dorival saiu atônito de cena e refletiu sobre aquele choro. Uma espetada no peito, quiçá, ardesse menos que as lágrimas ácidas de Joana. (Trair é sentir o peso de um travesseiro de pedra sob a cabeça, refletiu).

O coito durou cerca de duas horas. Ela tomou um banho rápido. Enquanto Joana se enxugava, Dom sentia o tesão tomar-lhe o corpo, novamente. Na porta da saída, Joana sentiu falta de um brinco e logo percebeu que a peça havia caído no mar. Sem amor ao órfão, arremessou a derradeira peça banhada a ouro no chão do quarto. O enfeite caiu mudo em cima do tapete de lã.

Dom e Dorival voltaram aos braços frios das respectivas companheiras no dia seguinte.

Semanas depois, tão intensa quanto calma, ela entrou em contato com Dorival. “Houve beleza naquilo tudo e, por um momento, tamanha sincronia, era como se vocês dois fossem apenas um”.

Por Diego Costa – AoOitavo
Ilustração de Rafaela Sueitt

Era julho de 2011

Maria Luiza, minha pequena perfeita. Minha Malu. Talvez, você nem goste de samba no futuro. Pode ser que, neste momento, o destino esteja rindo. Pode ser. Mas vou te contar sobre aquele julho de 2011. Sobre a referência musical do nosso País.

E, em simples devaneios, você irá contar às pessoas como foi a sua primeira vez no samba. Uma história descontraída, mais ou menos assim:

 

Eu acabara de completar 1 ano de idade quando papá me levou ao samba pela primeira vez. Não andava, só engatinhava. Era sábado de aniversário – de amigos –, eu estava vestida como Audrey Hepburn. A boina era vermelha, o que deixava ainda mais meu rosto com formato de maçã. “É porque é doce, filha”, dizia papá. Neste mesmo dia, ganhei uma Barbie. Em uma equação simples, era eu vestida de boneca francesa, a boneca americana e papá. Tudo sonorizado pelo samba.

“No samba eu nasci, no samba eu me criei”, recitaram ao ouvido de papá. E pode tatuar.

Meu herói me atirou diante do samba. Calcada naquele chão de azulejo, em resposta a ele, dancei sentada, apontando dois dedinhos para cima, como um japonês conhecendo o Carnaval. Os amigos se divertiam, riam, enquanto eu, sozinha no centro daquele “terreiro”, engatinhava para lá e para cá.

“Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar…”, dançavam os amigos. E eu, ao meu modo.

Quisera eu voltar a julho de 2011 e observar a expressão atônita de papá enquanto me fitava. Dois corações acelerados pela batida do tan tan. Ah, papá… Não fazia ideia se eu ia gostar disso ou daquilo no futuro. Mas me encaminhou, desde cedo, nas raízes desse Brasil.

 

Por Diego Costa – AoOitavo

A vida inteira em uma noite

Ser canalha é um estado de espírito. Mas é mentira. Espírito não sente. Quem sente é a carne, o músculo que se contorce ao sentir o calor mais íntimo do próximo. Calor, aquele calor que arde sem se ver? Não, é o começo, o meio e o fim. O calor é a vontade do momento que vem e passa após o suspiro renovador de fluídos compartilhados.

E a cerveja? Desce gelada até esquentar os pensamentos mais devassos. Do outro lado da mesa, palpitações penianas pulsam a cada toque de pés tímidos. A outra ponta responde fisiologicamente com uma descarga de hormônios enviada pelo o útero para o sangue.

Alisar a barba é o sinal de entrada, assim como o toque feminino pelo o cabelo. Os olhos respondem que “sim”, mutualmente, mas o garçom traz mais uma rodada de chop. Double chop. Eles recuperam os olhares. Ela arqueia a sobrancelha e, com um gesto tímido, concede a aproximação.

A aproximação é só um ato pífio do momento. Queriam mesmo era antecipar os clichês e se entregarem. Mas a situação pede cautela. Os amigos bebem mais um gole enquanto que, zapeando de rabo de olho, a insinuação explícita ocorre diante deles.

Comentários sob a mesa:

– Ela quer. E ele?

Um último gole: “Passaria a minha vida lá hoje à noite…”

Por Diego Costa – AoOitavo
e Denise Godinho, que escreve para o avessodessaordem.blogspot.com/

Longe do cinismo

Eu quero encontrar a cada dia que se passa o estado de ebriedade da noite anterior. Essa embriaguez, todavia, tem preço: financeiro, sendo que da última vez teve impacto moral. Foi no estado alcoólico que encontrei a paz em meu coração nos meses passados. Mas não posso – e não quero – viver anestesiado. Liderei a ressaca do ridículo há três semanas. Se isso fosse uma matéria de jornal, Nelson Rodrigues avisaria: “… Há quem pergunte se não tenho medo do ridículo. Absolutamente. E digo mais: só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando”.

Considere-me um mendigo, bêbado até de espírito e personagem central desta história. Estou atrás de um abrigo. Não importa, naquela noite, se a casa será feia ou bonita. Trata-se do aconchegante e de não sofrer pelo “se”, como diria Jaque. “É o ‘se’ que nos mata. A possibilidade de achar que vai mudar, quando não muda. Não dá para crer no ‘se’. Lembra do Rodrigo? Então…”. Eu odiei Jaqueline quando ela nasceu. “Veio para tomar o meu lugar”, devia pensar a criança de quatro anos de idade. Arrisco a dizer que a caçula deve ter tido alguns porres na vida, pouco mais de duas mãos. Certeza! Mas ela é de uma sobriedade comparada a de um Dalai Lama. E eu a amo como se deve amar a uma Malu. Ainda sobre o mendigo, vale ressaltar a filosofia do crepúsculo, na visão de Dona Lourdes, uma espírita mística do Estado da Paraíba: “São nessas horas escuras que ele desfruta do novo lar e esquece do que está lá fora”. Na minha explicação de mendigo, divago: “Tô na rua, mas não fechei a porta totalmente. Ficou entreaberta no meu inconsciente. Voltei lá, fui convidado a entrar. ‘E se?’. Recuei e deixei o amor no sopro do vento”. O mesmo vento que provocou o choque das madeiras minutos depois.

“Só o cinismo redime um casamento”, gritaria Nelson Rodrigues. E o eu mendigo rebateria: “Por isso, prefiro a ressaca do ridículo, o fim do ‘se’, ouvir verdades que doem, à dúvida que massacrou aquele meu coração!”.

Devemos ter vários corações os quais são distribuídos inúmeras vezes. Os mais conservadores vão dizer que isso é um absurdo: “O meu foi entregue uma vez só!”. Outros, os mais ponderados, deram duas ou três vezes. “Fracasso!”. “Nunca dei meu coração a ninguém”, com frieza, afirmaria o cético.

Voltando ao ciclo das pessoas que rondam este famigerado mendigo, lembro de Denise. Ela é “homem” – e já foi incrédula -, não no sentido sexual, mas no instinto atroz do macho. “Esta é uma fase de renovação, é preciso alcançar o fundo do poço pra ter vontade de sair de lá, nadando de novo”.

Tem também o Diego. Não tem mais fé na fidelidade, mas é prático. Primeiro, perguntaria: – “Como tá de sentimento?”

– Morto!

– Só isso? Então, joia!

Só isso…Toc toc, bate o mendigo em outra porta.

Por Diego Costa – AoOitavo
Ilustração de Rafaela Sueitt

A cada sopro do vento

É de dor de estômago que devo sucumbir um dia. O coração, esse só acelera – ou fica apertado – quando permito que alguém se aprochegue dele. Coração espetado resulta em dor física, ou seja, estômago.

Em um desses portais, pesquisei sobre dor de estômago. Encontrei como resposta: “Dor é uma resposta orgânica de que algo errado está ocorrendo. A dor é, portanto, uma forma de proteção do corpo para que evitemos suas causas ou fatores de piora. Decorre daí que busquemos diminuí-la, por exemplo, através do repouso, do jejum, de analgésicos e de outros tratamentos”. Será também essa a referência para dores abstratas?

Eu sinto em Flávia Elisa um estado mútuo de sintonia. Formosa, ela é tão intensa quanto este amigo que escreve, imagina situações, sofre por elas e pede conselhos, muitos. Há em toda esta pequena bijou um encantamento de outrora, um romance de alguém que chega a sentir dor física quando o amor arrebata uma Amazônia inteira de árvores.

Carinhosamente apelidado de twin por ela, digo-lhe. A cura não virá hoje, porque, por enquanto, tua trilha sonora é Marisa Monte. Percebi, Flávia Elisa, que eu deixei uma porta entreaberta no meu inconsciente. Acabei devastado, fraco e traído diante das boas lembranças do passado. Saí nocauteado e a dor de estômago foi homérica. Chorei de angústia. E, quando notei meu adversário se aproximando, enxerguei o seu rosto: o olhar era taciturno. Era eu, eu mesmo me esbofetando, era um espelho refletindo o pesadelo. A porta entreaberta foi, enfim, fechada, quando acordei.

Voltei a ouvir “Conselho”, do Almir Guineto.

Juntando os cacos
Não é fácil se adaptar à ideia de mudar. Mas a vida, às vezes, não nos deixa muitas escolhas. Eis as opções: sucumbir à inércia ou juntar os cacos. Acontece que o relógio de pulso continua com o seu incansável tic tac. Os livros continuam empoeirados, a caixa de e-mails continua cheia, os dias  continuam vazios. E a vida obriga-nos a cumprir seu ritual que parece ter sido meticulosamente arquitetado só para aqueles que não se dão o direito de sofrer.

Gírias inventadas
Até que (pedindo licença a Saramago) “a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginamos silêncios, e súbitos regressos quando pensamos que não voltaríamos a encontrar-nos”. De repente, nos pegamos vendo graça em um açaí na tigela, em mensagens de texto despretensiosas, metáforas e gírias inventadas. Nos pegamos dando apelidos às demonstrações mais francas de amizade e aos dialetos mais profundos que acontecem através do olhar ou de palavras que jamais serão esquecidas. De repente, nos pegamos retribuindo a vida a cada sopro do vento.

Cabelos encaracolados
Eram precisas duas e vinte e seis horas da tarde daquela que prometia ser a  sexta-feira mais devastadora dos últimos tempos. Até que o ponteiro dos minutos virou. Naquele dia, eu não precisaria de mais do que um minuto para perceber que, no que depender da cumplicidade de algumas pessoas, jamais estarei sozinha.

Comprovei a tese quando avistei, de longe, seus cabelos encaracolados e a sua camisa xadrez. Você estava sozinho – ou melhor, você nunca está sozinho; tem sempre uma cerveja na mão e muitas histórias prontas pra serem despejadas sobre uma mesa de bar -, tomando um chá de cadeira por causa do trânsito e da incapacidade alheia de ser pontual como você. Entre todos os tantos lugares do mundo, você estava ali; como sempre esteve para as pessoas que realmente te importam. Naquela sexta-feira, você me tirou do estado de inércia.

Vão-se os amores, ficam os amigos
Entre uma cerveja e outra, esboçamos algumas fórmulas fracassadas para o verdadeiro amor. Criamos teorias e bebemos incertezas. Contamos histórias que poderiam durar dois anos, ou duas horas. E a única conclusão precisa que consegui alcançar foi de que vão-se os amores, ficam os amigos. Ficam os açaís nas tigelas, as mensagens de texto despretensiosas, as metáforas e gírias inventadas. Ficam os apelidos e as demonstrações mais francas de amizade; também ficam os dialetos mais profundos que acontecem através do olhar ou de palavras que jamais serão esquecidas. Isso sem contar as cervejas. Fica a vida rindo da nossa juventude e pisando sobre os cacos.

Por Diego Costa – AoOitavo
e Flávia Elisa, que escreve para o horadocapuccino.wordpress.com

Mini, os Contos! (3)

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De que vale ser sua sombra se não me enxerga no escuro, meu bem?

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A bruxinha levantou a cajado do mago com um velho feitiço.

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Se ficares quieto,  Zoião, o Zé te fia pinga. Agora tapa o buraco!

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