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Esmola que tanto pede

Há ferrugem nos meus dedos, eles que se rompem sem vida pelo meu rosto. Não consigo me levantar daqui, o asfalto me cobre toda, é um desespero. Tem até um mijo gasto que já respira dessa minha podridão. Fico olhando aqui do beco pra cadeia, meu filho preso lá dentro, e eu pedindo esmolas pra um monte de lixo de gente. Minha vontade é gritar por socorro todo santo dia, mas minha boca anda costurada por um inchaço. É uma porra, uma porra de um peso que esmaga a minha garganta. E quando eu finalmente consigo gritar, quando o escuro liberta o meu grito, um desgraçado vem me comer e o sangue das minhas lágrimas encontra a boca encardida que grita, que merda! Vivo sozinha sem ele, as grades tão perto do outro lado da rua… Lá do outro lado da rua, eu vejo as grades que sufocam meu filho, incendiado naquela cadeia, preso num internato que só espuma drogas. Que fede mais do que a mim mesma, eu que imploro por miséria. Me falta ar, me falta lavar os cabelos as unhas os bagaços, me falta a porra do meu filho.

Por Renato Zapata – AoOitavo

Ilustrado por Rafaela Sueitt


Entre as patas há um poço

Durmo com uma cachorrinha que gosta de beliches. Ela é mandona, adora ficar por cima, de me ver lá embaixo, por entre os vãos. Das tábuas. Das dobras. O aperto do quarto faz com que eu veja discretamente o seu rabo balançando, ao trocar os degraus, espremendo-se contra a parede. As patas subindo desfazem a coleira que me prende à cama. E antes do sono, no escuro, eu também subo para lhe lamber o rosto. Me lambuzo em seu poço, naquele silêncio, só um ganido baixinho no ouvido. De quatro, ou de lado, não importa, sou seu dono, mendigo, mordomo. Mas ela gosta mesmo é de ficar por cima, os dois trepados no beliche, esquentando os pelos sem tosa. Roçando os caninos amorados. Amordaçados. Sei que ela chegou em casa quando sinto o cheiro de leite, as tetas chacoalhando pesadas, nossas cores se confundindo nos latidos que vêm de baixo, novatos, cobertos um no outro. Algumas vezes farejo seu sangue, o deleite do cio, e nos arranhamos a noite inteira até esgotarmos as gotas do gozo, do enrosco que espalha nossos corpos até amanhecer… Há três anos comemos da mesma ração.

Por Renato Zapata – AoOitavo

Ilustrado por Rafaela Sueitt


Mini, os Contos! (3)

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De que vale ser sua sombra se não me enxerga no escuro, meu bem?

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A bruxinha levantou a cajado do mago com um velho feitiço.

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Se ficares quieto,  Zoião, o Zé te fia pinga. Agora tapa o buraco!

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Pelas Calçadas

Guardo a carta
de minha bisa Nati
numa caixa de ferramentas.
 
E a uso para soldar,
sempre que algo quebro,
as mexericas que ela me mordia.
 
Deito em meu quarto, de joelhos,
Numa lembrança de missa em devaneio
Na ausênsia do corpo no fundo do seio,
Florido, que estava ali tão perto.
 
A carta que escrevi
E guardo
E escrevo
Desde o desterro
toda Noite…
 

Sem Olhares

Tenho olhos de vidro. Você me enxerga, eu te sinto. Dizem que eu vejo tudo negro, não conheço bem as cores. Gosto é de cheiros e sabores. De música também, principalmente do barulho do chuveiro que bate na boca do ralo. Até mesmo fecho os olhos ao beijar, é o que me esquenta. Não sei como é o céu, só entendo minhas almas. Quando uma pessoa segura meu braço me pedindo ‘licença’, eu sigo seus passos. E confio, cegamente. Seja quem for. Sonho sempre com vozes, e às vezes até atravesso a rua correndo, e todos gritam para que eu pare antes que os pneus deslizem. Não gosto de óculos, daqueles que chamam de escuros, não preciso tapar o que já está tapado. Esconda-se de mim, mas fique por aqui, bem perto. Com um corpo, você me sente, e com um disfarce, eu te enxergo. O que aconteceria se meus olhos quebrassem?

Por Renato Zapata – AoOitavo

Ilustrado por Rafaela Sueitt


Mini, os Contos! (2)

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Os ingressos esgotaram quando ela mostrou-lhes a sapatilha.

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Um Ipê se floriu todo ao ver o Cravo animado: me espeta, Rosinha!

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A cidade evaporou quando os cigarros acenderam a Rua.

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Por Renato Zapata – AoOitavo


às Palavras

Uma velhinha, de guarda-chuva encharcado e vestido florido, à espera de um trem, perguntou-me de uma vez, certa vez, ‘como se pode amar as palavras?’. Apertei o livro que estava lendo, sem marcar página, e guardei a caneta que o rabiscava para lhe dar e receber o encontro de nossos olhares curiosos…

Tome cuidado ao entrar, mas não tema. Abuse daquilo que te move, grita, te bebe. Costure os botões nas florestas, ou no que imaginar, e veja o seu sonho dentro do meu, na escrita: ela é o absurdo das mentes ligadas aos palcos distorcidos que nos envolvem para qualquer lugar, seja ali ou lá. Na literatura, a mais infame mentira é a única verdade. Todos os sonhos dentro de um só, seu e dela, de todos eles. É só folhear, mesmo displicente, as pegadas que as letras esquecem pelo papel, e ver-se refletido em cada trecho. Como se fosse colocado um espelho diante dum lago escuro, para que ele se enxergasse.

Como não amar as palavras, se como dissera um dos sabidos elas próprias amam-se umas às outras?…  É um jogo de sedução. Amor às palavras! E eu, jovem encantado, carrego livros como parte de mim, alojados em cada esquina. E até os guardo – os valiosos – num baú. Sem chave. Talvez seja por estar com os joelhos dobrados, rendidos, que me entrego à revelia do resto e os escrevo também. Ninguém escolhe ser escritor…

…são as palavras. Que escolhem. Quando percebem o encanto! Sejamos bons ou maus, só podemos gritar ‘somos escritores’ se houver o desejo mútuo. De outra forma não vale. Comigo começou no colégio, num pedido de redação despretensioso, e a imaginação livrou-se do controle. Lembro-me quase bem: um neto tentava matar a avó, ou salvá-la. As teclas apressaram-se em pedir socorro, o lápis não mais descansou, as folhas se reviraram sozinhas… Sim, é verdade! Escrever requer estar só. Trancado. Mas o calor das estradas e a vivência das vielas são o Pulso. É assim a criação da liberdade. A literatura deve ser livre.

Nada é em vão na escrita, cada segundo serve para aguçar o instinto. Assim no meio de tudo, descobri as palestras e suas oficinas literárias, a mesa do bar e o ócio, as noites acordadas e manhãs madrugadas, e principalmente a certeza de que as quero, as palavras, mais que tudo. Quero-as! E agora a angústia me aperta ainda mais forte… Com um prazer que inebria. Isso é escrever. É doar-se pelo amor ao sexo das palavras. Às frases inventadas.

Não sei qual o meu futuro como escritor – e quem sabe coisa alguma? -, ele ainda está às escuras. Que sorte!, é exatamente assim que faço quando escrevo, sem saber qual rumo minha personagem vai seguir, tateando a sorte do destino imposto. É exatamente isso: a escrita tem de ser puramente instintiva. Por enquanto, dedico-me à descoberta dos segredos do caminho. Seja ele obscuro ou luminoso, singelo ou perverso, sei apenas que escreverei até meus dedos caducarem.

Ah, importante, descobri algo importantíssimo solto pelo tempo. Escrever, falo baixo agora de propósito… é uma arte. Mas o que é arte?

O guarda-chuva da velhinha florida ficou no banco de passageiros, ao meu lado, esquecido em nossa conversa. Me levantei para avisá-la e até bati com o cabo no vidro do trem, mas ela já andava, vagarosa, tocando uma flauta. Doce. A água roia seus cabelos esbranquiçados enquanto as notas desviavam-se de cada gota… E a ouvir a música, seguimos sentindo, eu e ela, por dentro, de olhos fechados agora separados, a leveza do ar.

Por Renato Zapata – AoOitavo