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Onde filho chora e mãe não vê

Em Pintadas, na Bahia, o ‘sorriso faz parte da saúde’. A seca murcha o pasto, suga as aguadas, malha as vacas. Entristece os 10.441 habitantes do município.

Mas, mesmo com a terra improdutiva, o céu é azul e lembra o mar. O sorriso não é maroto, mas existe. E água é vida. É dinheiro no bolso. É ouro, é euro, é dólar. É saúde acima de todas as cifras.

É mais do que ‘passar a tarde em Itapuã…’.Diego Costa – AoOitavo, de Pintadas (BA)

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Em forma de arte

A Malu– Você é uma obra de arte!

Mas não está retratada em uma lapela. Ou endurecida pela argila. Você é uma arte em movimento que deixa qualquer escultura apagada.

Sua simetria é perfeita. E seus olhos são sua característica mais marcante. Olhos que expressam vida.

Assim como a beleza caracteriza a arte estática, a sua respiração gera o meu fôlego. Teus trejeitos são sublime, menina. Ame e tenha olheiras, pois é a naturalidade que te faz arte.

                                                    Diego Costa – AoOitavo


Certezas

Dessa vida a gente só leva amor e olheiras .

Diego Costa – AoOitavo


Um

Eu não saberia contar quantas pessoas há em minha volta. Tudo bem, eu só preciso contar até um.

Escrito pelo celular, durante o show do Marcelo Camelo. Retoques dos irmãos Thiago Barbieri e Bruno Barbieri.

Diego Costa – AoOitavo


Domingo

Não consegui sequer enxergar seus olhos verdes no domingo. Caía uma garoa e estava nublado. E eles não contrastam mais com dias assim.

Diego Costa – AoOitavo


O destino dos brincos

Os brincos dourados foram as únicas testemunhas inanimadas daquela noite. Enquanto o volume das ondas do mar se misturava com as três respirações, em tom uníssono, um brinco se desvencilhava do outro e, silenciosamente, contrastando com os alentos de praia e personagens, se afundava morosamente, até, enfim, deparar com o seu destino. Compunham este cenário: a lua cheia, lá no alto, a escuridão, lá na frente, e a areia – onde descansavam algumas mudas de roupas curtas –, lá atrás. Naquele instante, pouco importava perder um enfeite, sendo que diante de toda exuberância natural pintada por Deus – e todos ali sabiam da maravilha a ser desfrutada –, quem ordenava os próximos passos era a volúpia do trio.

Já não havia mais espaço para a maquiagem, que descia borrada pelo rosto dela em direção aos lábios roxos, friorentos e sem batom. Os olhos perderam o brilho, efeito da água salgada que apagava quaisquer resquícios de brilhantismo. Na noite, apenas a lua observava e iluminava, lá de cima, o que estava prestes a acontecer. E, por isso, só ela poderia brilhar. As duas esferas redondas e negras aparentavam ora tesão – um tanto enrustido –, ora dúvida. Medo, jamais. Gélidas, as mãos dela perderam a suavidade e o toque na pele não era assim tão prazeroso. Todavia, a gana pela conquista sobressaia – e os pormenores eram cartas fora do baralho. Curioso é o comportamento do Homo Sapiens na tentativa de persuadir alguém a ceder algo: o jogo de palavras, a audácia, são (quase) dignas de um poeta da Vila. Acaricia e sorri como se fosse a Mata Hari do gênero masculino até convencer o próximo de que aquele frio é, no duro, um arrepio de um sopro nas costas, daí o porquê dos beiços escurecidos.

Ela lutou e bradou aos quatro cantos da praia. Censurou-se (até as peças de Nelson Rodrigues sofreram censura…). Mas toda essa batalha e “falta de respeito” não era contra as duas almas ali presentes. Era contra ela, que sentia o calor se aproximar, enquanto o racional ia se esvaindo da mente.

Entraram no carro de Joana.

No trajeto, uma parada rápida, mas decisiva, em um botequim para saciar o súbito desejo por um café preto. (Talvez ela pensasse que a cafeína pudesse cortar o efeito das poucas cervejas ingeridas). No retorno, um cigarro fora acendido ao outro. Enquanto Joana dirigia, Dorival, sentado no banco de trás, estava calado e era um poço de oscilações de sentimentos. Entre tesão, aflição, insegurança e conquista, ele ficava com um ato: o grito interno…

Domenico era malicioso por natureza e mal sustentava a expressão de certeza. Até aquele momento, apesar dos olhares, respirações, diálogos e um breve toque nas costas, nem os lábios haviam se encontrado. (E o beijo é, ou deveria ser, o ponto de partida até chegar ao veredicto final). Dom estava sentado no banco da frente, e havia conhecido a motorista naquela noite. Convicto, já vibrava de excitação com o futuro a sua frente.

Ela não só admitiu, como sugeriu uma cabana ali pelas redondezas. O local havia pertencido a um tio, e ela tinha posse da chave do local. Dorival era conhecido dela. Ao constatar o suor de nervoso escorrer pelas mãos, sentiu-se patético, pois sabia que, entre as pernas dela, só havia uma constatação: o da luxúria pinicando a calcinha vermelha. O vestido dela era branco.
Adentraram a cabana. Sem paciência para mais conversas fiadas, a despiram-na e dominaram-na com voracidade. Houve um pequeno gemido da parte dela.

Antes do primeiro choque entre os órgãos, ela soltou um choro de desespero. Sabia ela que aquilo era incorreto e que a religião não permitia. (É natural que a fé ressurja nos momentos críticos, mas no momento de lascívia? Só no Rio de Janeiro). A partir daí, Dorival travou e, ao vê-la chorar, sentiu-se letárgico. Consequentemente, os músculos relaxaram, literalmente. Não era apenas o arrependimento da traição, mas, sim, o fato de trair a companheira (àquela hora ela já entrava no terceiro sono) com alguém que não valia a pena. Que nada significava.
Dom, cego pela quantidade de sangue concentrada no símbolo de Marte, a convencera de que aquilo era o momento. Enxugou-lhe as lágrimas, dera o beijo mais carinhoso na testa e abraçara para, logo em seguida, penetrar-lhe. O grito engasgado de tesão dela saiu com fervor.

Dorival saiu atônito de cena e refletiu sobre aquele choro. Uma espetada no peito, quiçá, ardesse menos que as lágrimas ácidas de Joana. (Trair é sentir o peso de um travesseiro de pedra sob a cabeça, refletiu).

O coito durou cerca de duas horas. Ela tomou um banho rápido. Enquanto Joana se enxugava, Dom sentia o tesão tomar-lhe o corpo, novamente. Na porta da saída, Joana sentiu falta de um brinco e logo percebeu que a peça havia caído no mar. Sem amor ao órfão, arremessou a derradeira peça banhada a ouro no chão do quarto. O enfeite caiu mudo em cima do tapete de lã.

Dom e Dorival voltaram aos braços frios das respectivas companheiras no dia seguinte.

Semanas depois, tão intensa quanto calma, ela entrou em contato com Dorival. “Houve beleza naquilo tudo e, por um momento, tamanha sincronia, era como se vocês dois fossem apenas um”.

Por Diego Costa – AoOitavo
Ilustração de Rafaela Sueitt


Era julho de 2011

Maria Luiza, minha pequena perfeita. Minha Malu. Talvez, você nem goste de samba no futuro. Pode ser que, neste momento, o destino esteja rindo. Pode ser. Mas vou te contar sobre aquele julho de 2011. Sobre a referência musical do nosso País.

E, em simples devaneios, você irá contar às pessoas como foi a sua primeira vez no samba. Uma história descontraída, mais ou menos assim:

 

Eu acabara de completar 1 ano de idade quando papá me levou ao samba pela primeira vez. Não andava, só engatinhava. Era sábado de aniversário – de amigos –, eu estava vestida como Audrey Hepburn. A boina era vermelha, o que deixava ainda mais meu rosto com formato de maçã. “É porque é doce, filha”, dizia papá. Neste mesmo dia, ganhei uma Barbie. Em uma equação simples, era eu vestida de boneca francesa, a boneca americana e papá. Tudo sonorizado pelo samba.

“No samba eu nasci, no samba eu me criei”, recitaram ao ouvido de papá. E pode tatuar.

Meu herói me atirou diante do samba. Calcada naquele chão de azulejo, em resposta a ele, dancei sentada, apontando dois dedinhos para cima, como um japonês conhecendo o Carnaval. Os amigos se divertiam, riam, enquanto eu, sozinha no centro daquele “terreiro”, engatinhava para lá e para cá.

“Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar…”, dançavam os amigos. E eu, ao meu modo.

Quisera eu voltar a julho de 2011 e observar a expressão atônita de papá enquanto me fitava. Dois corações acelerados pela batida do tan tan. Ah, papá… Não fazia ideia se eu ia gostar disso ou daquilo no futuro. Mas me encaminhou, desde cedo, nas raízes desse Brasil.

 

Por Diego Costa – AoOitavo