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Vou te contar…

Visitei o Rio de Janeiro nos meses de dezembro, 2011 e janeiro, 2012. O primeiro e um segundo olhar.

Eu fico a te olhar, Candelária!

Suntuosa, imponente, marca do zero, marcada pelo terror.

O que os teus olhos já viram?

Quantas lágrimas despejou?

Seus pés imergidos em sangue,

o sinal de que já não és mais aquela menina do Imperador.

Eu que lhe defronto, ao menos nesta noite, invejo sua frieza, sua sina de horror e de dor.

(à espera, na janela do Windsor, avistava a Igreja de costas para a Presidente Vargas)                               

……

A única luz te ilumina. Ah lamparina!

Você se apresenta em mais uma noite de orgia.

Sapateado esmaga os pedregulhos que sustentam a Mem de Sá.

Silêncio, agora à noite, só no morro,

porque na Lapa mais um sambista vai trabalhar.

O show tem que continuar!

(sentado em uma cadeira, num botequim da Lapa)

 

Denver Pelluchi Sá – AoOitavo


Criolina

Quero dividir com os leitores deste blog esta música, que me hipnotizou. Quem já conhece bem o trabalho de Zeca Baleiro perceberá a semelhança rítmica e vocal  destes maranhenses.

Convido a todos para ouvir outras canções, que misturam levadas do reggae jamaicano, com tabores da música popular do Maranhão à musica pop. Além de gêneros como a surf music e a jovem guarda, com referências do cinema antigo.

Por  Denver Sá –  AoOitavo


Juízo estético

“se a cada surpresa,

no que é seu, acometida lhe fora,

depositasse este tecido sorriso,

traçaria (eu) nas firmes mãos do destino,

o singular contorno do belo”.

Por Denver Sá – AoOitavo


Um instante

E bastou um relance para fixar. Ela estava lá. Só. Mas distante. Por alguns segundos nos encontramos no olhar. Supus! Tão compenetrada, que não pude me desvencilhar. Um instante nos paralisava. Desestimulado por pequenos golpes do vento. Continuei a encarar, sem me aproximar. Não porque quisesse, é claro! Quanta pretensão seria, se cogitasse lhe tocar. Não podia. Eu estático, ela imóvel. Implorar a inércia também não iria adiantar. Aos astros? Talvez! Cheguei até desconfiar: Pensa que não sei que és um corpo estelar…

Aquele tempo, que para ela era infindo, despedia-se na escuridão. Envolta às fumaças, aos poucos, se deixava apagar. Com ela o letárgico estado do encanto. E ele, o meu olhar, descia pacientemente a corredeira do horizonte. Mirando em frente, notou outros brilhos: do gás do lampião aceso aos holofotes dos automotivos; do tapa na ponta do cigarro até retomar os sentidos. Amei à luz! Na mesma intensidade, a luz.

Por Denver Sá – AoOitavo


Diabéisso

Era tolo, caboclo ligeiro, se vi u´a tosca, punha a trepar. Calango bão, zim fi não desdenha, bota quanto valor tens neste mundo, amiúde traiçoeiro.

Um dado dia à igreja mira, entorna o caneco, bate a bota e sai a cavalgar.

É que viste na sombra da capela a formosura cintilar. Banhada em piscina, com  nuance de cinismo, e os passos a apertar.

– diabéisso, resmungou de longe.

Era Iara a desfilar

– que cousa boa!

A fartura  que comprimia aquela veste alva, nem carece lhe contar….veste alva?

Alta noite em Sertânia escondia aberrações. Mas bicho dado a boemia, quer o quê, se  não o deleite em se estrepar?

Enxugando o bico de cachaça, desceu da mula. Cambaleando. Só pra espiar.

À sua vista, tudo se movia distorcido, dissonante àquele corpo. Num bote só agarrou-lhe pelo ventre e botou-lhe junto as folhas de caroá.

Era a libido, que emprestara a ele a fúria necessária para serrar as coxas alheias. Até que um grito veio lhe açoitar.

Danou-se! Padicinho é uma camélia.

Por Denver Sá – AoOitavo