Esmola que tanto pede

Há ferrugem nos meus dedos, eles que se rompem sem vida pelo meu rosto. Não consigo me levantar daqui, o asfalto me cobre toda, é um desespero. Tem até um mijo gasto que já respira dessa minha podridão. Fico olhando aqui do beco pra cadeia, meu filho preso lá dentro, e eu pedindo esmolas pra um monte de lixo de gente. Minha vontade é gritar por socorro todo santo dia, mas minha boca anda costurada por um inchaço. É uma porra, uma porra de um peso que esmaga a minha garganta. E quando eu finalmente consigo gritar, quando o escuro liberta o meu grito, um desgraçado vem me comer e o sangue das minhas lágrimas encontra a boca encardida que grita, que merda! Vivo sozinha sem ele, as grades tão perto do outro lado da rua… Lá do outro lado da rua, eu vejo as grades que sufocam meu filho, incendiado naquela cadeia, preso num internato que só espuma drogas. Que fede mais do que a mim mesma, eu que imploro por miséria. Me falta ar, me falta lavar os cabelos as unhas os bagaços, me falta a porra do meu filho.

Por Renato Zapata – AoOitavo

Ilustrado por Rafaela Sueitt

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