Arquivo para setembro, 2011

Entre as patas há um poço

Durmo com uma cachorrinha que gosta de beliches. Ela é mandona, adora ficar por cima, de me ver lá embaixo, por entre os vãos. Das tábuas. Das dobras. O aperto do quarto faz com que eu veja discretamente o seu rabo balançando, ao trocar os degraus, espremendo-se contra a parede. As patas subindo desfazem a coleira que me prende à cama. E antes do sono, no escuro, eu também subo para lhe lamber o rosto. Me lambuzo em seu poço, naquele silêncio, só um ganido baixinho no ouvido. De quatro, ou de lado, não importa, sou seu dono, mendigo, mordomo. Mas ela gosta mesmo é de ficar por cima, os dois trepados no beliche, esquentando os pelos sem tosa. Roçando os caninos amorados. Amordaçados. Sei que ela chegou em casa quando sinto o cheiro de leite, as tetas chacoalhando pesadas, nossas cores se confundindo nos latidos que vêm de baixo, novatos, cobertos um no outro. Algumas vezes farejo seu sangue, o deleite do cio, e nos arranhamos a noite inteira até esgotarmos as gotas do gozo, do enrosco que espalha nossos corpos até amanhecer… Há três anos comemos da mesma ração.

Por Renato Zapata – AoOitavo

Ilustrado por Rafaela Sueitt

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O destino dos brincos

Os brincos dourados foram as únicas testemunhas inanimadas daquela noite. Enquanto o volume das ondas do mar se misturava com as três respirações, em tom uníssono, um brinco se desvencilhava do outro e, silenciosamente, contrastando com os alentos de praia e personagens, se afundava morosamente, até, enfim, deparar com o seu destino. Compunham este cenário: a lua cheia, lá no alto, a escuridão, lá na frente, e a areia – onde descansavam algumas mudas de roupas curtas –, lá atrás. Naquele instante, pouco importava perder um enfeite, sendo que diante de toda exuberância natural pintada por Deus – e todos ali sabiam da maravilha a ser desfrutada –, quem ordenava os próximos passos era a volúpia do trio.

Já não havia mais espaço para a maquiagem, que descia borrada pelo rosto dela em direção aos lábios roxos, friorentos e sem batom. Os olhos perderam o brilho, efeito da água salgada que apagava quaisquer resquícios de brilhantismo. Na noite, apenas a lua observava e iluminava, lá de cima, o que estava prestes a acontecer. E, por isso, só ela poderia brilhar. As duas esferas redondas e negras aparentavam ora tesão – um tanto enrustido –, ora dúvida. Medo, jamais. Gélidas, as mãos dela perderam a suavidade e o toque na pele não era assim tão prazeroso. Todavia, a gana pela conquista sobressaia – e os pormenores eram cartas fora do baralho. Curioso é o comportamento do Homo Sapiens na tentativa de persuadir alguém a ceder algo: o jogo de palavras, a audácia, são (quase) dignas de um poeta da Vila. Acaricia e sorri como se fosse a Mata Hari do gênero masculino até convencer o próximo de que aquele frio é, no duro, um arrepio de um sopro nas costas, daí o porquê dos beiços escurecidos.

Ela lutou e bradou aos quatro cantos da praia. Censurou-se (até as peças de Nelson Rodrigues sofreram censura…). Mas toda essa batalha e “falta de respeito” não era contra as duas almas ali presentes. Era contra ela, que sentia o calor se aproximar, enquanto o racional ia se esvaindo da mente.

Entraram no carro de Joana.

No trajeto, uma parada rápida, mas decisiva, em um botequim para saciar o súbito desejo por um café preto. (Talvez ela pensasse que a cafeína pudesse cortar o efeito das poucas cervejas ingeridas). No retorno, um cigarro fora acendido ao outro. Enquanto Joana dirigia, Dorival, sentado no banco de trás, estava calado e era um poço de oscilações de sentimentos. Entre tesão, aflição, insegurança e conquista, ele ficava com um ato: o grito interno…

Domenico era malicioso por natureza e mal sustentava a expressão de certeza. Até aquele momento, apesar dos olhares, respirações, diálogos e um breve toque nas costas, nem os lábios haviam se encontrado. (E o beijo é, ou deveria ser, o ponto de partida até chegar ao veredicto final). Dom estava sentado no banco da frente, e havia conhecido a motorista naquela noite. Convicto, já vibrava de excitação com o futuro a sua frente.

Ela não só admitiu, como sugeriu uma cabana ali pelas redondezas. O local havia pertencido a um tio, e ela tinha posse da chave do local. Dorival era conhecido dela. Ao constatar o suor de nervoso escorrer pelas mãos, sentiu-se patético, pois sabia que, entre as pernas dela, só havia uma constatação: o da luxúria pinicando a calcinha vermelha. O vestido dela era branco.
Adentraram a cabana. Sem paciência para mais conversas fiadas, a despiram-na e dominaram-na com voracidade. Houve um pequeno gemido da parte dela.

Antes do primeiro choque entre os órgãos, ela soltou um choro de desespero. Sabia ela que aquilo era incorreto e que a religião não permitia. (É natural que a fé ressurja nos momentos críticos, mas no momento de lascívia? Só no Rio de Janeiro). A partir daí, Dorival travou e, ao vê-la chorar, sentiu-se letárgico. Consequentemente, os músculos relaxaram, literalmente. Não era apenas o arrependimento da traição, mas, sim, o fato de trair a companheira (àquela hora ela já entrava no terceiro sono) com alguém que não valia a pena. Que nada significava.
Dom, cego pela quantidade de sangue concentrada no símbolo de Marte, a convencera de que aquilo era o momento. Enxugou-lhe as lágrimas, dera o beijo mais carinhoso na testa e abraçara para, logo em seguida, penetrar-lhe. O grito engasgado de tesão dela saiu com fervor.

Dorival saiu atônito de cena e refletiu sobre aquele choro. Uma espetada no peito, quiçá, ardesse menos que as lágrimas ácidas de Joana. (Trair é sentir o peso de um travesseiro de pedra sob a cabeça, refletiu).

O coito durou cerca de duas horas. Ela tomou um banho rápido. Enquanto Joana se enxugava, Dom sentia o tesão tomar-lhe o corpo, novamente. Na porta da saída, Joana sentiu falta de um brinco e logo percebeu que a peça havia caído no mar. Sem amor ao órfão, arremessou a derradeira peça banhada a ouro no chão do quarto. O enfeite caiu mudo em cima do tapete de lã.

Dom e Dorival voltaram aos braços frios das respectivas companheiras no dia seguinte.

Semanas depois, tão intensa quanto calma, ela entrou em contato com Dorival. “Houve beleza naquilo tudo e, por um momento, tamanha sincronia, era como se vocês dois fossem apenas um”.

Por Diego Costa – AoOitavo
Ilustração de Rafaela Sueitt