Arquivo para julho, 2011

Longe do cinismo

Eu quero encontrar a cada dia que se passa o estado de ebriedade da noite anterior. Essa embriaguez, todavia, tem preço: financeiro, sendo que da última vez teve impacto moral. Foi no estado alcoólico que encontrei a paz em meu coração nos meses passados. Mas não posso – e não quero – viver anestesiado. Liderei a ressaca do ridículo há três semanas. Se isso fosse uma matéria de jornal, Nelson Rodrigues avisaria: “… Há quem pergunte se não tenho medo do ridículo. Absolutamente. E digo mais: só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando”.

Considere-me um mendigo, bêbado até de espírito e personagem central desta história. Estou atrás de um abrigo. Não importa, naquela noite, se a casa será feia ou bonita. Trata-se do aconchegante e de não sofrer pelo “se”, como diria Jaque. “É o ‘se’ que nos mata. A possibilidade de achar que vai mudar, quando não muda. Não dá para crer no ‘se’. Lembra do Rodrigo? Então…”. Eu odiei Jaqueline quando ela nasceu. “Veio para tomar o meu lugar”, devia pensar a criança de quatro anos de idade. Arrisco a dizer que a caçula deve ter tido alguns porres na vida, pouco mais de duas mãos. Certeza! Mas ela é de uma sobriedade comparada a de um Dalai Lama. E eu a amo como se deve amar a uma Malu. Ainda sobre o mendigo, vale ressaltar a filosofia do crepúsculo, na visão de Dona Lourdes, uma espírita mística do Estado da Paraíba: “São nessas horas escuras que ele desfruta do novo lar e esquece do que está lá fora”. Na minha explicação de mendigo, divago: “Tô na rua, mas não fechei a porta totalmente. Ficou entreaberta no meu inconsciente. Voltei lá, fui convidado a entrar. ‘E se?’. Recuei e deixei o amor no sopro do vento”. O mesmo vento que provocou o choque das madeiras minutos depois.

“Só o cinismo redime um casamento”, gritaria Nelson Rodrigues. E o eu mendigo rebateria: “Por isso, prefiro a ressaca do ridículo, o fim do ‘se’, ouvir verdades que doem, à dúvida que massacrou aquele meu coração!”.

Devemos ter vários corações os quais são distribuídos inúmeras vezes. Os mais conservadores vão dizer que isso é um absurdo: “O meu foi entregue uma vez só!”. Outros, os mais ponderados, deram duas ou três vezes. “Fracasso!”. “Nunca dei meu coração a ninguém”, com frieza, afirmaria o cético.

Voltando ao ciclo das pessoas que rondam este famigerado mendigo, lembro de Denise. Ela é “homem” – e já foi incrédula -, não no sentido sexual, mas no instinto atroz do macho. “Esta é uma fase de renovação, é preciso alcançar o fundo do poço pra ter vontade de sair de lá, nadando de novo”.

Tem também o Diego. Não tem mais fé na fidelidade, mas é prático. Primeiro, perguntaria: – “Como tá de sentimento?”

– Morto!

– Só isso? Então, joia!

Só isso…Toc toc, bate o mendigo em outra porta.

Por Diego Costa – AoOitavo
Ilustração de Rafaela Sueitt

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A cada sopro do vento

É de dor de estômago que devo sucumbir um dia. O coração, esse só acelera – ou fica apertado – quando permito que alguém se aprochegue dele. Coração espetado resulta em dor física, ou seja, estômago.

Em um desses portais, pesquisei sobre dor de estômago. Encontrei como resposta: “Dor é uma resposta orgânica de que algo errado está ocorrendo. A dor é, portanto, uma forma de proteção do corpo para que evitemos suas causas ou fatores de piora. Decorre daí que busquemos diminuí-la, por exemplo, através do repouso, do jejum, de analgésicos e de outros tratamentos”. Será também essa a referência para dores abstratas?

Eu sinto em Flávia Elisa um estado mútuo de sintonia. Formosa, ela é tão intensa quanto este amigo que escreve, imagina situações, sofre por elas e pede conselhos, muitos. Há em toda esta pequena bijou um encantamento de outrora, um romance de alguém que chega a sentir dor física quando o amor arrebata uma Amazônia inteira de árvores.

Carinhosamente apelidado de twin por ela, digo-lhe. A cura não virá hoje, porque, por enquanto, tua trilha sonora é Marisa Monte. Percebi, Flávia Elisa, que eu deixei uma porta entreaberta no meu inconsciente. Acabei devastado, fraco e traído diante das boas lembranças do passado. Saí nocauteado e a dor de estômago foi homérica. Chorei de angústia. E, quando notei meu adversário se aproximando, enxerguei o seu rosto: o olhar era taciturno. Era eu, eu mesmo me esbofetando, era um espelho refletindo o pesadelo. A porta entreaberta foi, enfim, fechada, quando acordei.

Voltei a ouvir “Conselho”, do Almir Guineto.

Juntando os cacos
Não é fácil se adaptar à ideia de mudar. Mas a vida, às vezes, não nos deixa muitas escolhas. Eis as opções: sucumbir à inércia ou juntar os cacos. Acontece que o relógio de pulso continua com o seu incansável tic tac. Os livros continuam empoeirados, a caixa de e-mails continua cheia, os dias  continuam vazios. E a vida obriga-nos a cumprir seu ritual que parece ter sido meticulosamente arquitetado só para aqueles que não se dão o direito de sofrer.

Gírias inventadas
Até que (pedindo licença a Saramago) “a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginamos silêncios, e súbitos regressos quando pensamos que não voltaríamos a encontrar-nos”. De repente, nos pegamos vendo graça em um açaí na tigela, em mensagens de texto despretensiosas, metáforas e gírias inventadas. Nos pegamos dando apelidos às demonstrações mais francas de amizade e aos dialetos mais profundos que acontecem através do olhar ou de palavras que jamais serão esquecidas. De repente, nos pegamos retribuindo a vida a cada sopro do vento.

Cabelos encaracolados
Eram precisas duas e vinte e seis horas da tarde daquela que prometia ser a  sexta-feira mais devastadora dos últimos tempos. Até que o ponteiro dos minutos virou. Naquele dia, eu não precisaria de mais do que um minuto para perceber que, no que depender da cumplicidade de algumas pessoas, jamais estarei sozinha.

Comprovei a tese quando avistei, de longe, seus cabelos encaracolados e a sua camisa xadrez. Você estava sozinho – ou melhor, você nunca está sozinho; tem sempre uma cerveja na mão e muitas histórias prontas pra serem despejadas sobre uma mesa de bar -, tomando um chá de cadeira por causa do trânsito e da incapacidade alheia de ser pontual como você. Entre todos os tantos lugares do mundo, você estava ali; como sempre esteve para as pessoas que realmente te importam. Naquela sexta-feira, você me tirou do estado de inércia.

Vão-se os amores, ficam os amigos
Entre uma cerveja e outra, esboçamos algumas fórmulas fracassadas para o verdadeiro amor. Criamos teorias e bebemos incertezas. Contamos histórias que poderiam durar dois anos, ou duas horas. E a única conclusão precisa que consegui alcançar foi de que vão-se os amores, ficam os amigos. Ficam os açaís nas tigelas, as mensagens de texto despretensiosas, as metáforas e gírias inventadas. Ficam os apelidos e as demonstrações mais francas de amizade; também ficam os dialetos mais profundos que acontecem através do olhar ou de palavras que jamais serão esquecidas. Isso sem contar as cervejas. Fica a vida rindo da nossa juventude e pisando sobre os cacos.

Por Diego Costa – AoOitavo
e Flávia Elisa, que escreve para o horadocapuccino.wordpress.com