Arquivo para abril, 2011

Dissabor

– Morro disso!
– Morrer de dissabor, já diria o Cartola…

Que tristeza é viver a vida sem um gole de amor. E esse olhar, falso olhar, desencantou, enquanto a goela que salivava, de tanto implorar, secou.

Se soubesse controlar o tempo, paralisaria ela por lá. Lá, onde o choro do samba promete não acabar. Ficaram, no centro histórico da cidade, os resquícios de nós dois. Cravado no marco zero uma saudade da noite que se foi.

Cem mangos. Um doce perfume, uma noite fria…

Pobre músculo que bate. A você, coração que sofre, te digo: Não podes nem com um pedaço de papel!

Por Denver Pelluchi e Diego Costa – AoOitavo


Pelos olhos

Não posso contigo, quando penso no teu grito. Nego-me no discurso, mas me contradigo diante da maquiagem, borrada, que escurece seu par de olhos pretos. São nesses olhos que enxergo e meço a tua volúpia sexual…

Diego Costa – AoOitavo


Entre trechos

Às vezes, eu sinto necessidade de te acordar no meio da madrugada. Com nove meses, sem frases conexas e afagos que estralam, já é capaz de me notar. Olhando-te daqui, dormindo assim, você se parece com uma flor. As flores se balançam ao mandado do vento, enquanto você tenta apalpar esse assopro divino. E isso soa tão Los Hermanos, minha pequena “morena”, que “sereno é quem tem a paz de estar em par com Deus”.

Se eu te acordasse agora, seria para te colocar de cabeça para baixo; somente para escutar e me deliciar com a sua risada de seis dentes. E isso é Chico Buarque, minha pequena artista, a “uma pirueta! Duas piruetas! Bravo! Bravo!”, tentando ilustrar o nosso infindo momento.

Eu sinto que você já quer seguir os seus passos. Físicos, pelo menos. Se apoia onde dá, balança pra lá, pra cá. É a minha pequena sambista. É o “samba de Maria Luiza”, que é “bonito pra chuchu…”, ao tom do Jobim. E, se você cair, chore. Mas lembre-se: “menina bonita não chora, e eu estou aqui para lhe consolar…”, meu Ben.

No quarto, o silêncio e as molduras: você representada pela pintura surrealista e a literatura, de artistas desconhecidos pelo grande público. Ao clique do abajur, você acordaria sob a luz “azul da cor do mar”, do Tim. E, se sentisse medo, ouviria, não em canção, mas em palavras que são repetidas desde o seu nascimento. “O papai tá aqui, filha…”.

Por Diego Costa – AoOitavo