Arquivo para 27/11/2010

às Palavras

Uma velhinha, de guarda-chuva encharcado e vestido florido, à espera de um trem, perguntou-me de uma vez, certa vez, ‘como se pode amar as palavras?’. Apertei o livro que estava lendo, sem marcar página, e guardei a caneta que o rabiscava para lhe dar e receber o encontro de nossos olhares curiosos…

Tome cuidado ao entrar, mas não tema. Abuse daquilo que te move, grita, te bebe. Costure os botões nas florestas, ou no que imaginar, e veja o seu sonho dentro do meu, na escrita: ela é o absurdo das mentes ligadas aos palcos distorcidos que nos envolvem para qualquer lugar, seja ali ou lá. Na literatura, a mais infame mentira é a única verdade. Todos os sonhos dentro de um só, seu e dela, de todos eles. É só folhear, mesmo displicente, as pegadas que as letras esquecem pelo papel, e ver-se refletido em cada trecho. Como se fosse colocado um espelho diante dum lago escuro, para que ele se enxergasse.

Como não amar as palavras, se como dissera um dos sabidos elas próprias amam-se umas às outras?…  É um jogo de sedução. Amor às palavras! E eu, jovem encantado, carrego livros como parte de mim, alojados em cada esquina. E até os guardo – os valiosos – num baú. Sem chave. Talvez seja por estar com os joelhos dobrados, rendidos, que me entrego à revelia do resto e os escrevo também. Ninguém escolhe ser escritor…

…são as palavras. Que escolhem. Quando percebem o encanto! Sejamos bons ou maus, só podemos gritar ‘somos escritores’ se houver o desejo mútuo. De outra forma não vale. Comigo começou no colégio, num pedido de redação despretensioso, e a imaginação livrou-se do controle. Lembro-me quase bem: um neto tentava matar a avó, ou salvá-la. As teclas apressaram-se em pedir socorro, o lápis não mais descansou, as folhas se reviraram sozinhas… Sim, é verdade! Escrever requer estar só. Trancado. Mas o calor das estradas e a vivência das vielas são o Pulso. É assim a criação da liberdade. A literatura deve ser livre.

Nada é em vão na escrita, cada segundo serve para aguçar o instinto. Assim no meio de tudo, descobri as palestras e suas oficinas literárias, a mesa do bar e o ócio, as noites acordadas e manhãs madrugadas, e principalmente a certeza de que as quero, as palavras, mais que tudo. Quero-as! E agora a angústia me aperta ainda mais forte… Com um prazer que inebria. Isso é escrever. É doar-se pelo amor ao sexo das palavras. Às frases inventadas.

Não sei qual o meu futuro como escritor – e quem sabe coisa alguma? -, ele ainda está às escuras. Que sorte!, é exatamente assim que faço quando escrevo, sem saber qual rumo minha personagem vai seguir, tateando a sorte do destino imposto. É exatamente isso: a escrita tem de ser puramente instintiva. Por enquanto, dedico-me à descoberta dos segredos do caminho. Seja ele obscuro ou luminoso, singelo ou perverso, sei apenas que escreverei até meus dedos caducarem.

Ah, importante, descobri algo importantíssimo solto pelo tempo. Escrever, falo baixo agora de propósito… é uma arte. Mas o que é arte?

O guarda-chuva da velhinha florida ficou no banco de passageiros, ao meu lado, esquecido em nossa conversa. Me levantei para avisá-la e até bati com o cabo no vidro do trem, mas ela já andava, vagarosa, tocando uma flauta. Doce. A água roia seus cabelos esbranquiçados enquanto as notas desviavam-se de cada gota… E a ouvir a música, seguimos sentindo, eu e ela, por dentro, de olhos fechados agora separados, a leveza do ar.

Por Renato Zapata – AoOitavo

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