Arquivo para 23/11/2010

Capitães da Areia

Li um trecho de Capitães da Areia, de Jorge Amado, e, para fazer pilhéria, acho digno destacar neste blog. Um tanto quanto canalha (mais até que esta página de Internet), o AoOitavo sede um espaço para essa passagem que daria um curta-metragem.

Conforme a introdução do livro, Capitães da Areia é uma obra apreciada por leitores brasileiros e estrangeiros. Publicado em 1937, pouco depois do Estado Novo, o livro teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados em praça pública de Salvador por autoridades da ditadura. Uma nova edição foi publicada em 1944 e marcou época na literatura brasileira.

A história é sobre meninos abandonados nas ruas de Salvador, na Bahia, descrita, principalmente, com um diálogo regional. Dentre os bruguelos,  Gato e a coroa Dalva. Ele, com 14 anos, é considerado pelos amigos o “elegante do grupo. Vinha do meio dos índios maloqueiros, crianças que vivem sob as pontes de Aracaju”. Gato nasceu “para o grande mundo” e tinha “um ar petulante”. Apesar da tenra idade, já andava pela ruas das mulheres, com brilhantina no cabelo e um andar malandro. Já Dalva, tinha o “corpo forte e o rosto cheio de sensualidade”.

Sem mais enrolar, o resto da história ficará subentendido. Ou não.

Dalva o esperava na janela. O Gato olhou para ela fixamente:

– Vou emborcar… – e foi entrando sem esperar resposta.

Dalva, mesmo no corredor, perguntou:

– O que foi que ele disse?

– No quarto te digo. Mo mostre onde é.

Entraram no quarto. A primeira coisa que o Gato viu foi um retrato de Gastão tocando flauta, vestido smoking. Sentou na cama olhando o retrato. Dalva espiava espantada e mal pôde novamente interrogar:

– O que foi que ele disse?

O Gato respondeu:

– Senta aqui – e indicou a cama.

– Esse frangote… – murmurou ela.

–Olha, bichinha, ele ta grudado com outra, sabe? Também eu disse as boas aos dois. E depois pelei a bruaca – meteu a mão no bolso, tirou o dinheiro. – Vamos rachar isso.

– Ta com outra, não é? Mas meu Senhor do Bonfim há de fazer com que os dois fiquem entrevado. Senhor do Bonfim é meu santo.

Foi até onde estava o quadro do santo. Fez a promessa e voltou.

– Guarda teu dinheiro. Tu ganhou direito.

O Gato repetiu:

– Senta aqui.

Desta vez ela sentou, ele a pegou e a derrubou na cama. Depois que ela gemeu com o amor e com os tabefes que ele lhe deu, murmurou:

– O frangote parece um homem…

Ele se levantou, endireitou as calças, foi até onde estava o retrato do flautista Gastão e rasgou.

– Vou tirar um retrato pra tu botar aí.

A mulher riu e disse:

– Vem, bichinho bom. Que malandro não vai sair daí! Vou te ensinar tanta coisa, meu cachorrinho.

Fechou a porta do quarto. O Gato tirou a roupa.

Por isso o Gato sai toda meia-noite e não dorme no trapiche. Só volta pela manhã para ir com os outros para as aventuras do dia.

Diego Costa – Ao Oitavo

Anúncios