Arquivo para novembro, 2010

às Palavras

Uma velhinha, de guarda-chuva encharcado e vestido florido, à espera de um trem, perguntou-me de uma vez, certa vez, ‘como se pode amar as palavras?’. Apertei o livro que estava lendo, sem marcar página, e guardei a caneta que o rabiscava para lhe dar e receber o encontro de nossos olhares curiosos…

Tome cuidado ao entrar, mas não tema. Abuse daquilo que te move, grita, te bebe. Costure os botões nas florestas, ou no que imaginar, e veja o seu sonho dentro do meu, na escrita: ela é o absurdo das mentes ligadas aos palcos distorcidos que nos envolvem para qualquer lugar, seja ali ou lá. Na literatura, a mais infame mentira é a única verdade. Todos os sonhos dentro de um só, seu e dela, de todos eles. É só folhear, mesmo displicente, as pegadas que as letras esquecem pelo papel, e ver-se refletido em cada trecho. Como se fosse colocado um espelho diante dum lago escuro, para que ele se enxergasse.

Como não amar as palavras, se como dissera um dos sabidos elas próprias amam-se umas às outras?…  É um jogo de sedução. Amor às palavras! E eu, jovem encantado, carrego livros como parte de mim, alojados em cada esquina. E até os guardo – os valiosos – num baú. Sem chave. Talvez seja por estar com os joelhos dobrados, rendidos, que me entrego à revelia do resto e os escrevo também. Ninguém escolhe ser escritor…

…são as palavras. Que escolhem. Quando percebem o encanto! Sejamos bons ou maus, só podemos gritar ‘somos escritores’ se houver o desejo mútuo. De outra forma não vale. Comigo começou no colégio, num pedido de redação despretensioso, e a imaginação livrou-se do controle. Lembro-me quase bem: um neto tentava matar a avó, ou salvá-la. As teclas apressaram-se em pedir socorro, o lápis não mais descansou, as folhas se reviraram sozinhas… Sim, é verdade! Escrever requer estar só. Trancado. Mas o calor das estradas e a vivência das vielas são o Pulso. É assim a criação da liberdade. A literatura deve ser livre.

Nada é em vão na escrita, cada segundo serve para aguçar o instinto. Assim no meio de tudo, descobri as palestras e suas oficinas literárias, a mesa do bar e o ócio, as noites acordadas e manhãs madrugadas, e principalmente a certeza de que as quero, as palavras, mais que tudo. Quero-as! E agora a angústia me aperta ainda mais forte… Com um prazer que inebria. Isso é escrever. É doar-se pelo amor ao sexo das palavras. Às frases inventadas.

Não sei qual o meu futuro como escritor – e quem sabe coisa alguma? -, ele ainda está às escuras. Que sorte!, é exatamente assim que faço quando escrevo, sem saber qual rumo minha personagem vai seguir, tateando a sorte do destino imposto. É exatamente isso: a escrita tem de ser puramente instintiva. Por enquanto, dedico-me à descoberta dos segredos do caminho. Seja ele obscuro ou luminoso, singelo ou perverso, sei apenas que escreverei até meus dedos caducarem.

Ah, importante, descobri algo importantíssimo solto pelo tempo. Escrever, falo baixo agora de propósito… é uma arte. Mas o que é arte?

O guarda-chuva da velhinha florida ficou no banco de passageiros, ao meu lado, esquecido em nossa conversa. Me levantei para avisá-la e até bati com o cabo no vidro do trem, mas ela já andava, vagarosa, tocando uma flauta. Doce. A água roia seus cabelos esbranquiçados enquanto as notas desviavam-se de cada gota… E a ouvir a música, seguimos sentindo, eu e ela, por dentro, de olhos fechados agora separados, a leveza do ar.

Por Renato Zapata – AoOitavo


Capitães da Areia

Li um trecho de Capitães da Areia, de Jorge Amado, e, para fazer pilhéria, acho digno destacar neste blog. Um tanto quanto canalha (mais até que esta página de Internet), o AoOitavo sede um espaço para essa passagem que daria um curta-metragem.

Conforme a introdução do livro, Capitães da Areia é uma obra apreciada por leitores brasileiros e estrangeiros. Publicado em 1937, pouco depois do Estado Novo, o livro teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados em praça pública de Salvador por autoridades da ditadura. Uma nova edição foi publicada em 1944 e marcou época na literatura brasileira.

A história é sobre meninos abandonados nas ruas de Salvador, na Bahia, descrita, principalmente, com um diálogo regional. Dentre os bruguelos,  Gato e a coroa Dalva. Ele, com 14 anos, é considerado pelos amigos o “elegante do grupo. Vinha do meio dos índios maloqueiros, crianças que vivem sob as pontes de Aracaju”. Gato nasceu “para o grande mundo” e tinha “um ar petulante”. Apesar da tenra idade, já andava pela ruas das mulheres, com brilhantina no cabelo e um andar malandro. Já Dalva, tinha o “corpo forte e o rosto cheio de sensualidade”.

Sem mais enrolar, o resto da história ficará subentendido. Ou não.

Dalva o esperava na janela. O Gato olhou para ela fixamente:

– Vou emborcar… – e foi entrando sem esperar resposta.

Dalva, mesmo no corredor, perguntou:

– O que foi que ele disse?

– No quarto te digo. Mo mostre onde é.

Entraram no quarto. A primeira coisa que o Gato viu foi um retrato de Gastão tocando flauta, vestido smoking. Sentou na cama olhando o retrato. Dalva espiava espantada e mal pôde novamente interrogar:

– O que foi que ele disse?

O Gato respondeu:

– Senta aqui – e indicou a cama.

– Esse frangote… – murmurou ela.

–Olha, bichinha, ele ta grudado com outra, sabe? Também eu disse as boas aos dois. E depois pelei a bruaca – meteu a mão no bolso, tirou o dinheiro. – Vamos rachar isso.

– Ta com outra, não é? Mas meu Senhor do Bonfim há de fazer com que os dois fiquem entrevado. Senhor do Bonfim é meu santo.

Foi até onde estava o quadro do santo. Fez a promessa e voltou.

– Guarda teu dinheiro. Tu ganhou direito.

O Gato repetiu:

– Senta aqui.

Desta vez ela sentou, ele a pegou e a derrubou na cama. Depois que ela gemeu com o amor e com os tabefes que ele lhe deu, murmurou:

– O frangote parece um homem…

Ele se levantou, endireitou as calças, foi até onde estava o retrato do flautista Gastão e rasgou.

– Vou tirar um retrato pra tu botar aí.

A mulher riu e disse:

– Vem, bichinho bom. Que malandro não vai sair daí! Vou te ensinar tanta coisa, meu cachorrinho.

Fechou a porta do quarto. O Gato tirou a roupa.

Por isso o Gato sai toda meia-noite e não dorme no trapiche. Só volta pela manhã para ir com os outros para as aventuras do dia.

Diego Costa – Ao Oitavo


Sobre ir

Fosse conto de fadas ou realidade: ela viria com ele. Viria, porque fora proposto por ele que ela viesse. E ela veio ao passo que ele veio. Para ir.

Não é sobre voltar. É sobre ir na direção do perto e do longe, durante o luar e o solar. Durante o crepúsculo para qualquer outro lugar!

É sobre regenerar as feridas a uma velocidade que, talvez, nem eles acompanhem. Tampouco compreendem.

Assim como o teu ensaio, Saramago, eles voltaram a se enxergar. Voltaram a se enxergar, porque antes sofreram da cegueira, que não era branca. Era escura. Ácida, a chuva corria-os. E o único clarão era visível aos ouvidos pela força dos relâmpagos.

Assim como teus personagens, Saramago, eles voltaram a enxergar. Mas não é sobre voltar. É sobre ir “onde o vento for”.

Diego Costa – AoOitavo


Um instante

E bastou um relance para fixar. Ela estava lá. Só. Mas distante. Por alguns segundos nos encontramos no olhar. Supus! Tão compenetrada, que não pude me desvencilhar. Um instante nos paralisava. Desestimulado por pequenos golpes do vento. Continuei a encarar, sem me aproximar. Não porque quisesse, é claro! Quanta pretensão seria, se cogitasse lhe tocar. Não podia. Eu estático, ela imóvel. Implorar a inércia também não iria adiantar. Aos astros? Talvez! Cheguei até desconfiar: Pensa que não sei que és um corpo estelar…

Aquele tempo, que para ela era infindo, despedia-se na escuridão. Envolta às fumaças, aos poucos, se deixava apagar. Com ela o letárgico estado do encanto. E ele, o meu olhar, descia pacientemente a corredeira do horizonte. Mirando em frente, notou outros brilhos: do gás do lampião aceso aos holofotes dos automotivos; do tapa na ponta do cigarro até retomar os sentidos. Amei à luz! Na mesma intensidade, a luz.

Por Denver Sá – AoOitavo