Arquivo para outubro, 2010

Por Perto

Me sinto sozinho aqui, e até nos arredores. Há um calendário com vários riscos, os dias estão presos. Não tenho passado a recordar nem futuro a pensar. Só tenho a mim e a um quadrado torto que me faz olhar, e olhar. Para a rua, para longe. Havia um riso, talvez, lá no início, e só lá. Não me perdi, só nunca me machuquei com alguém que não fosse a solidão. E isso… é isso. Você não me conhece e jamais me reconhecerá. Sim, jamais! Mas eu te percebo, assim, mesmo distante. Ah, são as cartas! e o carteiro! Vou baixar a cabeça e recebê-las. Apesar de ninguém me ver, devo guardar meus olhos. As escadas já estão molhadas.

Por Renato Zapata – AoOitavo

Anúncios

Ele e Eles

Pensei que as paredes falassem! Elas não falam? Você não ouve o ruído que caminha, e volta, e vai? Nem se tocar as rachaduras com o ouvido? Vem aqui, escuta. Encosta na parede, eu juro. Vem logo. Minha voz está rouca, doída. O barulho parou bem agora que você veio, falei que ia passar. Você nunca vai acreditar em mim? Nem se eu gritar mais alto? Não se esconde aí, não. Fico com medo no escuro, do seu lado, encolhido, você fica gelada aqui. E vai faltar ar se ficarmos abaixados. Quero sair!

Com as janelas abertas, agora sim. Deita no chão que ele vem vindo. Isso, não olha, não olha. Por favor, para! Para de olhar. Ele me assusta com aquele terno preto todo amassado. Você não tem medo? Acho que… passou. Pronto, vamos levantar devagar, bem devagar. Quer que eu me jogue da sacada? Não, não posso. Já disse que não, hoje não. Vou estalar uns ovos, quer?

Você me lambuza inteiro, depois a sujeira não sai nem se tacar detergente. E nunca sorri, fica toda séria, me olhando. Vem aqui assistir à televisão, tem um crocodilo, um rio, que coragem. Quando era pequeno eu ia nadar em qualquer lugar. Já chega!, fica quieta. Só vou parar de gritar quando você sentar aqui. Está ouvindo as paredes? Está?

Já falei que não quero mais aquela aliança. Você sempre me lembra disso e nunca vem procurar comigo. E quando você não vem, ele surge de braços cruzados, todo esfarrapado, e minha cabeça dói, todo dia, toda hora. Quero ficar aqui jogado e puxar meus cabelos até estourar. Que droga! Cadê as chaves? Vou procurar a aliança sem você, se ele aparecer a culpa vai ser sua. Preciso de um submarino para olhar nos bueiros, e luz. Muita luz. Tenho de achar o brilho do ouro, o ouro brilha amarelo, o ouro. Só o brilho. Debaixo daquele carro. Alguém viu o anel rolando na rua?!

O chão parece meio mole, ele deve estar por perto. Meu Deus, o chão sempre fica mole quando ele está por perto. Já sinto aquele cheiro me atacando. Some daqui, me solta, desgraçado, não quero voltar para casa, me solta. Tomar cuidado com o quê? Com quem? Não, ela não me faz mal, ela cuida de mim. Você sim é mal. Olha o meu dedo vazio. Não posso ir, tenho de achar a aliança, some daqui! Se eu voltar, você vai embora pra sempre?

Na ida deixo pegadas no asfalto, assim eu próprio me sigo depois.

Você estava me esperando, já conseguiu ouvir as rachaduras? Ele veio de novo. Não pude mais ficar procurando, mas… não fala assim! Mas amanhã você vai comigo e aí ele não vem. Enfiar aquela faca, em mim? Ia sujar tudo de sangue, você limpava? Mas agora não, estou com sono. Não vai pôr sua camisola? Por que você sempre some à noite? Se ele vier, eu me cubro até conseguir dormir.

Por Renato Zapata – AoOitavo


Essa não é para amar…

visão do AoOitavo sobre uma personagem da Noite…

Calejada do samba, desregrada e prática com os dedos, descalços, guardados num chão de passos, ela era indiferente: o olhar nos olhos dele não dizia nada, e só. Calcada num terreiro, sentiu-se no direito de um toco de madeira nos roubar. De azul e branco, ele gesticulou e argumentou, mas ela, com duas ou três frases, soltas como as vestimentas, o despedaçou. Mesmo sentados, o rapaz continuou a falar, e ela com aquele, o mesmo olhar.

Quando o samba voltou, o silêncio dela era ensurdecedor, e havia apenas o violonista, que, ao fundo, incitava mais uma canção. No início estava tudo bem entre eles. Mas depois o dançar faltou, e o espaço dela, com franqueza, demarcou o não. Porque estava claro que havia uma barreira. Que a devoção dela era mundana, do mundo, largado, amada, e de mala nas costas ele se foi. Para que ela voltasse a sambar.

Por Denver Sá, Diego Costa e Renato Zapata –  AoOitavo

…num guardanapo que ainda recende a cerveja.


Mini, os Contos!

.

Sob o lençol enroscou-se na miragem deitada no rasgo do sofá.

.

O pipoqueiro perguntou à moça de vestidinho: doce ou picante?

.

A pirueta do palhaço alargou o riso do matador de crianças.

……………………………………………………………………………………………………………………………………….

A ideia, e inspiração, dos minicontos surgiu do livro “Os cem menores contos brasileiros“, vários autores, organizada pelo escritor Marcelino Freire. A proposta que ele faz aos autores do livro é a de escrever um conto num máximo de 50 palavras, sem contar espaços e pontuações. O livro instiga e, por si só, também  nos  convida a  escrever. E aí agora resolvo postar, aos poucos, aqui no AoOitavo, parte das minhas brincadeiras, colagens, literatura… Mini, os Contos!

Por Renato Zapata – AoOitavo